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Sem
Manobras
Integração entre projeto arquitetônico e estrutural é indispensável
para melhor aproveitamento espacial das garagens
por Simone Sayegh
Um
eficiente projeto de garagens divide-se entre o projeto arquitetônico,
que prevê adequada modulação de pilares e distribuição de
vagas, e o projeto estrutural, que define o perfeito ajuste dos
pilares e vigas às necessidades estruturais do edifício. "O
trabalho integrado entre arquitetura e estrutura possibilita a obtenção
de melhores resultados na utilização dos espaços de
garagem", afirma o arquiteto Ronaldo Raciunas, coordenador de
projetos da construtora Líder. Assim também pensa o arquiteto
Carlos Alberto Maciel, da Raul Neuenschwander Engenharia de
Estruturas, escritório de Belo Horizonte. Para Maciel, quando o
arquiteto e o engenheiro conseguem equacionar uma integração entre
os módulos das estruturas e o do estacionamento, atinge-se o máximo
aproveitamento da área, com conforto e redução das áreas de
circulação. "Essa coordenação modular possibilita maior número
de vagas proporcionalmente à área da garagem, e última instância,
economia real", conclui.
De acordo com Raciunas, proporcionar vagas confortáveis também não
implica aumento de custo para o empreendimento. As estruturas de
transição, resultantes de uma dificuldade de compatibilização
entre estruturas superiores e inferiores, podem ser evitadas se o
projeto prever uma integrada modulação entre arquitetura e
estrutura e o emprego de lajes nervuradas ou de concreto protendido.
"As estruturas de transição são caras e criam pontos de
grande tensão", concorda Maciel. No entanto, se existe a
necessidade de uma transição entre estruturas, os especialistas
concordam que a melhor solução é a mudança na forma dos pilares,
mantendo-se o mesmo centro de gravidade, conforme explica o
engenheiro Julio Timerman, da CEL Engenharia: "As mudanças de
seções dos pilares, também chamadas de transições, são
comumente utilizadas nas edificações residenciais, de maneira a
adequar as estruturas ao partido arquitetônico".
Nos subsolos, os pilares apresentam secções - quadrada ou circular
- que permitem a otimização dos espaços de manobra e
estacionamento de veículos. Nos pavimentos-tipo, os pilares se
alongam, com o objetivo de embuti-los nas paredes de alvenarias.
"Mas se a melhor solução for o emprego de estruturas de
transição, o cliente deve se conscientizar que o retorno virá na
forma de funcionalidade, durabilidade e segurança estrutural",
acredita Timerman.
Exigências legais
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Ao
definir a altura da garagem, é importante considerar o espaço
ocupado pelas instalações elétricas e hidráulicas, que
reduzem bastante o pé-direito
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As
leis que regulam as dimensões das vagas variam de cidade para
cidade e devem ser analisadas e atendidas pelo profissional que irá
elaborar o projeto. No caso do município de São Paulo, o código
de Edificações é regulado pela lei 11.228/1992, que prevê vagas
em três tamanhos, além da vaga destinada a deficiente físico, e
estipula percentuais mínimos para a utilização de cada tamanho.
"É atribuição do arquiteto identificar a que público se
destina o projeto, e a partir daí, quantificar as vagas e as dimensões
necessárias", afirma Raciunas. Segundo o código, as vagas
grandes devem possuir dimensões de 2,50 x 5,50 m, as médias, 2,10
x 4,70 m, enquanto as pequenas devem medir 2,00 x 4,20 m. Para as
vagas grandes devem ser destinados, no mínimo, 5% do total de
vagas, já as vagas de tamanho médio, 45%, enquanto as pequenas
devem ocupar no máximo 50% do total de vagas.
De
acordo com o arquiteto Carlos Alberto Maciel, em Belo Horizonte, a
lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo define que as dimensões
mínimas livres para uma vaga de estacionamento são de 2,30 x 4,50
m. "No entanto, para se conformar vagas realmente confortáveis,
são necessárias larguras entre 2,50 e 3,00 m, especialmente se
considerarmos os carros maiores", acredita. Em geral, os itens
básicos da regulamentação sobre estacionamentos em edifícios
residenciais e conjuntos comerciais prevêem rampas com inclinação
de cerca de 20% no máximo, 3 m de largura nas vias de circulação,
além de vagas com o mínimo de 2,10 x 4,20 m, com pé-direito de
2,30 m.
De acordo com Timerman, a modulação de vagas de
dimensões maiores, como 2,5 x 5, 5m, é a solução mais racional e
confortável possível, exceto nas vagas previstas para pessoas
portadoras de deficiências ou com restrição de acessibilidade,
que devem possuir maiores dimensões. A conceituação básica é
prever um projeto racional dentro das dimensões recomendadas, com
acessos que permitam um fluxo rápido, sinalizado e sem obstruções
para manobras internas e externas, com um máximo de regularidade e
modularidade possíveis, a partir das dimensões de vagas padrão.
As vagas para deficientes não devem entrar nessa modularidade, por
constituir pequeno número em relação ao total, o que não impede
que sejam resolvidas de maneira a se obter boa localização e maior
conforto.
A modulação ideal de pilares utiliza múltiplos
de 2,5 m, para que não sobrem vagas com metade do tamanho exigido,
e apresenta pilares distribuídos a pelo menos 7,5 m de distância,
de maneira a oferecer conforto para a circulação dos carros. O
arquiteto ainda deve evitar a localização dessas estruturas na
linha que divide as vagas das circulações, de maneira a liberar as
curvas das manobras de entrada e saída das vagas. Da mesma maneira,
o acesso à última vaga, junto à parede, demanda maior largura,
tanto para a manobra como para a abertura das portas.
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De
projeto estrutural do engenheiro Julio Timerman, esse edifício
demandou estruturas de transição no subsolo e pavimento térreo,
com sensível ganho na circulação das garagens. Com a solução,
as estruturas tiveram aumento de custo de 8%, mas o imóvel
foi valorizado em cerca de 20% em relação aos vizinhos, do
bairro de Higienópolis, em São Paulo
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Com
relação à dimensão do pé-direito, deve-se considerar o espaço
ocupado pelas instalações elétricas e hidráulicas, que diminuem
a altura em cerca de 20 cm. A execução de lajes nervuradas com
concreto protendido garante a obtenção de vãos muito maiores, com
baixo consumo de concreto e aço, e eliminam as vigas, o que libera
mais espaço de pé-direito para execução das instalações
complementares. "A saída está na adoção de soluções
integradas entre os sistemas elétrico, hidráulico, estrutural e
arquitetônico", acredita o engenheiro Raul Neuenschwander. O
uso já difundido do concreto de alto desempenho tem possibilitado a
diminuição das seções dos pilares e um conseqüente aumento do
espaço na distribuição das vagas. O problema é que, dependendo
do projeto, o custo da solução não compensa.
Para baratear custos, é possível utilizar pilares com resistências
maiores na área do estacionamento e concreto convencional no resto
da estrutura. "Muitos problemas de dimensionamento podem ser
resolvidos dessa forma, evitando-se a perda de vagas", explica
Neuenschwander. No entanto, os especialistas acreditam que é a
compatibilização entre o projeto arquitetônico e estrutural o
grande responsável por um bom projeto. "É a racional
distribuição estrutural, e não somente as dimensões dos pilares,
o que permite ao projeto de garagens oferecer espaço e
conforto", concorda Raciunas.
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O
edifício de projeto estrutural de Raul Nevenschwander, em
Belo Horizonte, necessitou de uma estrutura de transição na
laje do subsolo para o piso do térreo. A solução que
garantiu mais espaço para as vagas e circulação foi a execução
de uma viga metálica com a mesa em concreto armado. Assim, o
concreto, ligado ao aço por conectores, trabalha à compressão
e o aço, à tração. Resultado: seções mais eficientes e
com altura reduzida
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Imposições
de mercado
Apesar
das legislações para estacionamentos em edifícios comerciais e
residenciais serem claras, os casos de vagas mal dimensionadas e de
espaços insuficientes para manobras continuam a existir. Para
Timerman, isso ocorre devido a uma imposição mercadológica que
exige a construção de mais vagas do que o espaço permite. "A
definição do número de vagas é feita por incorporadoras que não
respeitam as leis da física, e acabam impondo a premissa de querer
construir três vagas onde só cabem duas", afirma. Outra questão
que pode desvirtuar o projeto é a urgência da aprovação do
projeto legal sem a finalização de todos os outros projetos, ao
menos na fase do pré-executivo. Essa prática comum de mercado gera
um grande número de alterações que podem implicar mudanças
significativas no projeto inicial previsto, e acabam interferindo
prejudicialmente nos espaços das garagens, de maneira a acarretar
uma redução no número de vagas.
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O
principal responsável por um bom projeto de garagem é a
racional distribuição estrutural casada com uma correta
modulação das vagas e das áreas de circulação
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Com
relação ao projeto de arquitetura, além da modulação necessária,
os erros mais comuns ocorrem quando se desconsidera a dimensão
necessária para as curvas, o que amplia a necessidade de manobras.
Já no âmbito do cálculo estrutural, deve ser prevista a
deformabilidade da estrutura, sob o risco de ocorrerem graves
patologias nas vedações e em outros elementos da edificação.
Projetos
integrados
A
garagem pública Trianon Park situa-se debaixo da praça Alexandre
de Gusmão, junto ao parque Siqueira Campos (Trianon) e entre as
alamedas Santos e Jaú, importantes vias paralelas à avenida
Paulista, no Jardim Paulista, em São Paulo. A obra é um exemplo de
como os projetos de arquitetura e estrutura, quando nascem juntos,
podem produzir beleza, racionalidade e conforto. Devido à
necessidade de preservação da praça, estipulada no edital, a
garagem apresenta poucas interferências externas. De acordo com
Milton Braga, arquiteto do escritório MMBB, autor do projeto
arquitetônico, um dos princípios que regem a obra é a busca pela
integração dos espaços, de maneira a evitar o confinamento já
característico de uma garagem em subsolo. Dessa maneira, a solução
adotada para o local abrigar cerca de 500 vagas, sendo 600 veículos
por dia, foi o uso de rampas com função dupla - circulação e
estacionamento - que formam circuitos contínuos que se desenvolvem
em três níveis básicos entre dois acessos: superior, junto à
alameda Santos, e inferior, junto à alameda Jaú. Seis seminíveis
semi-circulares são interligados por essas rampas largas e suaves
que apresentam 5,9% de inclinação. As faixas de acesso às vagas têm
6 m de largura. O partido adotado elimina a separação entre plano
de uso e rampa de acesso, em uma lógica helicoidal. Além da
economia de espaço, a própria circulação que dá acesso às
vagas já faz a articulação entre os níveis, o tráfego dos automóveis
torna-se mais racional, assim como em uma rua comum. O circuito contínuo
tem duas faixas paralelas de acesso às vagas, cada qual para um
sentido, e interligadas por retornos periódicos. As vagas
alinham-se em quatro renques, dois para cada uma das faixas de
circulação. As vagas especiais, para motos e deficientes físicos,
foram alocadas no meio-nível superior, o qual, vinculado ao lado de
maior afluência de usuários, caracteriza-se como especial.
Espaço
valorizado
De acordo com Braga, além do melhor aproveitamento do espaço e as
vagas confortáveis, uma garagem sem compartimentação mostra-se
inteira ao usuário, que entende o espaço e se localiza com
facilidade. "O usuário deve olhar e logo entender uma garagem
pública, até por questões de segurança", explica. Todos os
seminíveis e rampas abrigam 505 vagas padrão, de 4,50 x 2,35 m,
seis vagas para automóveis de deficientes físicos com 4,50 x 3,50
m e 42 vagas para motocicletas com 2,0 x 1,0 m. Para possibilitar a
integração entre os seminíveis e permitir que em 7,5 m de altura,
pé-direito mínimo de 2,30 m, coubessem os três níveis básicos,
foi utilizado concreto protendido na execução de lajes do tipo
cogumelo, moldadas em fôrmas reaproveitáveis.
As
lajes ficaram com 18 cm de espessura no interior da garagem e com
uma sobrecarga de 300 kg/m2, que é o usual nesse tipo de obra. Nos
semicírculos foram inseridos cabos de protensão curvos que
coincidem com os trechos mais rígidos da laje. A protensão
interliga os pilares, distribuídos a cada 7,5 m. Mesmo no trecho
circular, a medida se mantém porque os pilares formam um
alinhamento paralelo ao eixo longitudinal. Milton explica que em
edifícios garagem, a distância entre os pilares pode ser muito
maior, "no Recife construímos uma garagem pública com até
15,50 m de vão entre pilares". No total, a garagem Trianon
apresenta 13 mil m² de área construída e 12 mil m² de área de
estacionamento, de uma arquitetura inteiramente enterrada sob uma
praça.
Soluções
alternativas
Em
geral, a busca por soluções alternativas acontece quando o projeto
precisa contemplar mais vagas do que as obtidas com as modulações
tradicionais, quando o valor do terreno é muito alto, ou em edifícios
construídos em áreas com restrição de altura. Os sistemas disponíveis
oferecem mais vagas, mas ao mesmo tempo exigem diferentes dimensões
de espaço, e investimentos que já devem estar previstos desde a
concepção do projeto. Uma das soluções para aumentar as vagas em
edifícios já construídos é mecanizar garagem, com a
possibilidade até de dobrar o número de vagas no estacionamento.
De acordo com o arquiteto Carlos Alberto Maciel, da Raul
Neuenschwander Engenharia de Estruturas, a implantação de
plataformas elevatórias justifica-se em áreas muito densas, onde
é necessário um maior aproveitamento de pequenos lotes, mas as
garagens devem dispor de um pé-direito livre muito mais elevado que
o previsto em norma.
O método de paletes ou pranchas (foto) que prendem e organizam os
carros lado a lado sobre trilhos móveis em um canto da garagem, é
mais comum. O ganho de espaço é feito pela subtração das áreas
de circulação e de manobras, mas o sistema deve contar com
adequada disposição dos pilares e dos trilhos do equipamento. Para
o arquiteto Ronaldo Raciunas, coordenador de projetos da construtora
Líder, os custos de implantação dos equipamentos e de mão-de-obra,
que deve ficar disponível 100% do tempo para efetuar a movimentação
dos veículos, ainda não compensam a utilização do sistema.
Além de métodos mecanizados, existe uma solução que prevê o
estacionamento direto sobre as rampas de circulação entre os níveis.
Nesse caso, as rampas devem possuir inclinação entre 4 e 6%, e
largura de cerca de 10 m (ver boxe garagem Trianon). O sistema é
recomendado para uso específico em edifícios de garagem pública,
pois exige muita área de terreno.
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