Contenção por Gravidade

 

Tecnologia milenar assegura a integridade de taludes, encostas e margens de canais a um custo competitivo. Veja os requisitos para uso de gabião e as vantagens

O uso de gabiões em estradas, como no caso desse acesso da Castello Branco, na região de Sorocaba (SP), está entre as aplicações mais comuns dessa tecnologia, uma vez que a disponibilidade de espaço é maior

Os gabiões estão, muito provavelmente, entre as mais antigas soluções de engenharia para problemas de infra-estrutura. Utilizado de maneira rudimentar por egípcios e chineses desde antes de Cristo, o gabião surgiu em sua versão moderna, com gaiolas metálicas, na Itália do final do século XIX.

Por definição - e até em virtude da origem da palavra - gabiões são envoltórios preenchidos com pedras para aplicações geotécnicas, hidráulicas e de proteção superficial. Substituem o uso de grandes blocos, de difícil manuseio, ou de pedras soltas, que não garantiriam a durabilidade e o desempenho enquanto sistema.

As principais características de uma estrutura dessas, seja qual for sua aplicação final, são o fato de ser armada, monolítica, flexível, permeável e autodrenante. Por ter rochas naturais como principal material componente, é durável, tendo como principal foco de desgaste a malha metálica. No entanto, as técnicas atuais de proteção contra corrosão garantem uma longa vida útil aos gabiões.

Versáteis, os gabiões-caixa podem ser utilizados para a construção de canais, proteção de margens e revestimento do fundo. O geotêxtil na face interna impede carreamento dos finos

Os arames de aço de baixo teor de carbono que compõem as telas passam, normalmente, por processo de zincagem pesada e podem ou não contar com um recobrimento adicional em material plástico. Nesse caso, ganham maior resistência contra ataques químicos e intempéries.

A malha hexagonal é tecida em dupla torção, conforme exigido na NBR 10514 (Redes de aço com malha hexagonal de dupla torção, para confecção de gabiões). Ou seja, os fios são entrelaçados por meias voltas duplas, o que aumenta a eficiência na distribuição das tensões e a estabilidade do conjunto no caso de uma eventual ruptura do arame. Assim, a tela não desfia e tem a integridade estrutural preservada.

Outras características desses materiais são a facilidade de execução, que dispensa mão-de-obra especializada, a versatilidade de aplicação e o impacto ambiental reduzido. Isso porque utiliza matéria-prima natural e é permeável, contando com cerca de 30% do volume formado por vazios, além de integrar-se ao meio ambiente permitindo o crescimento de vegetação entre as pedras.

Embora a mão-de-obra não necessite de treinamento específico, deve ser orientada quanto à disposição das pedras nas celas. "O cálculo admite uma proporção de vazios que depende da arrumação do preenchimento", alerta o engenheiro Geraldo Gama, do Cetae-IPT (Centro de Tecnologias Ambientais e Energéticas do Instituto de Pesquisas Tecnológicas). Quando se trata de obras de contenção, caso exista o cuidado de se colocar as pedras mais planas - pedras-espelho - na face frontal, o aspecto estético se torna menos agressivo e o uso arquitetônico e mesmo residencial é possibilitado.

O preenchimento das gaiolas pode ser feito com o uso de qualquer material ou rocha não friável - usualmente basalto, granito ou seixo - com granulometria no mínimo 1,5 vez maior que a abertura da malha, a chamada "pedra de mão". Em algumas situações, o uso pode ser limitado devido à indisponibilidade de material de preenchimento. Tendo como característica o baixo custo e não o nível de tecnologia envolvido, pode não fazer sentido importar material de outras regiões para viabilizar o uso. O importante é que o material proporcione peso, rigidez e resistência à estrutura, principalmente no caso de muros de arrimo, que são obras de contenção por gravidade.

Versatilidade na aplicação

São três os tipos de gabiões disponíveis no mercado que contam com a mesma definição: invólucros de malha metálica preenchidos com rocha. O mais comum e difundido é o gabião-caixa, mas existem também os colchões e os gabiões-saco (ver lipos).

Os dois primeiros, quando argamassados na face externa, podem exigir sistemas de captação e descarga da água e, assim, contar com drenos ou barbacãs. A drenagem superficial pode ser feita por canaletas ou sistemas similares.

A necessidade de argamassamento pode se dar para evitar atos de vandalismo, especialmente em áreas urbanas, onde não raro há o corte de trechos das telas, por efeito de higiene, no caso de cursos de água ou locais sujeitos à infestação por ratos, ou por motivos hidráulicos, pois a superfície rugosa pode diminuir a velocidade de cursos de água.

A dupla torção nos arames é exigência da NBR 10514 e visa uma distribuição mais homogênea das tensões atuantes, bem como a manutenção da resistência, mesmo no caso de rompimento de alguns fios

Especificamente no caso dos colchões, pode haver problemas com subpressão hidráulica e mesmo com a dilatação da camada de argamassa. A solução para esses casos é a colocação de sarrafos de madeira a cada dois metros, antes do lançamento da argamassa. Retirados antes do término da cura, os sarrafos garantem o alívio da subpressão e até o uso de barbacãs, além de tornar a estrutura semiflexível.

Ainda tratando de gabiões-caixa e colchões, a aplicação de uma manta geotêxtil no tardoz da estrutura permite a passagem do fluxo de água e evita o carreamento dos finos do solo por entre as pedras e a conseqüente erosão do talude. "É geralmente definido segundo o tipo de solo a conter", explica o engenheiro Michele Carraro.

Em relação à aplicação, os colchões formam estruturas de revestimento de grande superfície e pouca espessura e não se destinam à contenção de taludes. As aplicações mais comuns são na proteção superficial de solos, em proteções hidráulicas e em obras de canalização.

Os gabiões-saco, bastante versáteis, dispensam cuidados semelhantes por serem, geralmente, utilizados em segundo plano e em conjunto com outros modelos de gabiões. Compostos por um pano único de tela, apresentam formato cilíndrico e são aplicados para regularizar superfícies, quando não há condições para escavação, em obras submersas ou emergenciais e em locais de difícil acesso.

Atuam também como fundação para estruturas de contenção por gravidade em solos com baixa capacidade de suporte. Ao contrário dos demais, são montados e preenchidos no canteiro e posteriormente lançados no local definitivo por grua ou guindaste.

Caixa de utilidades

O uso enquanto contenção de gravidade, o popular muro de arrimo, é a aplicação mais conhecida do gabião, principalmente no que diz respeito a aterros. Em cortes de talude, a aplicação é pouco comum, pois a eficiência do sistema é maior quando os degraus são voltados para dentro e ficam soterrados, o que é impossível nesses casos. Além disso, o corte deve se dar por seções, e não por fiadas horizontais, e o espaço ocupado pela estrutura é maior. Ainda assim, a configuração final - com degraus internos, externos ou ambos - será determinada pelo dimensionamento e pela viabilidade construtiva.

Para ambos os casos, o princípio de atuação é o peso proporcionado pela massa e faz-se necessário o uso dos gabiões-caixa. São peças em forma de prisma retangular com 1 m de altura, 1 m de profundidade e largura variável, mas divididas internamente por diafragmas a cada metro, formando celas de 1 m3 (ver ilustração). A divisão interna, feita durante a fabricação, é importante para reforçar a estrutura e facilitar a montagem e o enchimento dos elementos.

Gabaritos de madeira posicionados na face frontal dos gabiões durante a execução ajudam a evitar deformações da tela e a posicionar as pedras mais planas na frente, formando uma face menos rugosa

É importante salientar que, embora as rochas sejam mais pesadas que o solo, os gabiões contam, conforme mencionado acima, com cerca de 30% de vazios. Assim, mesmo com um peso específico das rochas de 2,4 t/m3, o peso dos gabiões se assemelha ao da maioria dos solos, que fica em torno de 1,8 t/m3.

O dimensionamento das estruturas em gabiões é feito com base no comportamento estático, que considera a resistência ao tombamento, ao escorregamento, a estabilidade global e as pressões na fundação. Assim, no mínimo uma sondagem de percussão é necessária para verificação das condições do terreno. No caso de aplicações hidráulicas, deve-se verificar o comportamento frente à ação da água.

O cálculo em muito se assemelha ao da maioria das estruturas convencionais. "A execução e os detalhes construtivos é que são diferentes de outros tipos de soluções", conta Carraro. Os valores obtidos com os ensaios e as avaliações do terreno é que vão determinar a seção da estrutura e a quantidade e o posicionamento das caixas. O engenheiro Frederico Falconi, da Zaclis, Falconi Engenheiros Associados, recomenda dispor as camadas de forma cruzada. Ou seja, se na primeira camada as celas estão alinhadas à parede do aterro, na camada seguinte devem ser transversais à mesma. Essa estratégia, explica Falconi, aumenta a estabilidade do conjunto.

Outra recomendação de Falconi é considerar uma inclinação de 10% para dentro do maciço. Daí, quando as deformações naturais de acomodação ocorrerem, a sensação estética será a de que o muro é vertical. Se for executado na vertical, é possível que após a acomodação o muro fique inclinado para fora, passando a impressão de projeto ou execução errôneos. "Considero 1/10, mas o valor depende do critério de cada projetista", salienta.

Com a recomendação de, sempre que possível, voltar os degraus para o lado de dentro a fim de fazer o peso próprio do aterro atuar na contenção, é interessante aprofundar a estrutura em, pelo menos, 30 cm abaixo da linha do solo. A justificativa para tanto é o aumento do atrito obtido com um encaixe preciso no terreno. É essencial proteger o pé do muro da erosão e saturação do solo causada por escoamento de água, o que pode ser feito com a construção de canaletas.

Para o gabião é possível acumular a função de apoio de pontes e defesa contra a erosão de aterros de encontro. Para tanto, é essencial verificar as condições do solo. "As fundações têm maior responsabilidade", alerta Carraro. Esse recurso extingue a idéia de que estruturas de gabiões sempre deformam, pois as vigas e os tabuleiros, em tais casos, são apoiados diretamente sobre as caixas.

A montagem das caixas se dá já no local da aplicação. Com as telas esticadas e dobradas, conforme as instruções do fabricante, em seguida devem ser dispostos os gabaritos de madeira na face frontal, que vão evitar deformações e garantir a conformação plana dos elementos. As pedras devem ser colocadas em três camadas.

Após acomodar as rochas até atingir 1/3 da altura da caixa é recomendável aplicar dois tirantes - do mesmo material que a malha - no sentido transversal das caixas. Com 2/3 completos, uma nova linha de tirantes deve ser disposta e só então o preenchimento deve ser total, extrapolando em cerca de 3 cm a altura das caixas. O preenchimento de celas contíguas deve ser simultâneo, a fim de evitar esforços e deformações nas divisões internas. Em caixas de esquina é interessante aplicar tirantes em ambos os sentidos, a fim de preservar a geometria dos elementos.

Principais tipos de gabião

Gabião-caixa

O mais típico e difundido modelo de gabião, é adequado para usos diversos, como estruturas de contenção por gravidade, barragens, canalizações, apoios de pontes e defesa contra erosão. Forma estruturas de contenção monolíticas, flexíveis e autodrenantes, lançando mão de materiais baratos e abundantes, além de não exigir conhecimento técnico específico para a execução.

Gabião-colchão

Um pano único constitui as paredes laterais e extremas, a base e os diafragmas desse gabião, adequado para revestimentos de canais, barragens em terra, escadas dissipadoras e outras obras, geralmente hidráulicas. Drenantes e armados, apresentam superfície maior do que a espessura e podem ser revestidos com argamassa.

Gabião-saco

Único tipo de gabião que não é montado no local de aplicação, mas sim transportado já preenchido por gruas ou guindastes, dispensa também o recobrimento do terreno com geotêxtil. É indicado para obras emergenciais, obras hidráulicas ou submersas ou em locais de difícil acesso. Pode ser utilizado como fundação de muros de gabiões em solos com baixa capacidade de suporte.

Reforço de solo

Permite obter inclinações maiores a partir da mescla de sistemas de contenção e reforço de solos. A tela metálica que constitui a tampa, a frente e a base se estende por alguns metros - definido em projeto - a fim de constituir o reforço do solo aterrado. A aparência externa, assim como a forma de preenchimento das caixas, é a mesma de um gabião comum. Em vez de degraus, uma única coluna forma o muro. É indicado para formação ou recomposição de maciço.

Reportagem de Bruno Loturco

 

 

 

 

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