Concreto - Roteiro de Fornecimento

 

A relação entre construtores e concreteiras exige grande transparência e participação para ser bem-sucedida

O advento do concreto produzido em central eliminou inúmeras incertezas em relação ao material que compõe as estruturas. Além de aliviar o departamento de compras da obrigação de controlar os insumos pertinentes, a opção de comprar concreto de um fornecedor especializado traz embutido o incremento tecnológico. Ou seja, por serem oriundos de centrais dosadoras, as quantidades de cimento, água, agregados e aditivos são muito mais precisas e, portanto, confiáveis.

Em contrapartida, processos de produção tecnologicamente mais avançados exigem informações mais detalhadas, precisas e passíveis de serem trocadas dinamicamente. Se boa parte dos problemas da construção civil concentra-se nas interfaces entre materiais e sistemas, nesse caso, alguns problemas surgem da interação entre os atores: projetista, construtora e concreteira. Se a relação entre a tríade não for afinada e constante, a incidência de erros é quase certa. "Quando conseguimos uma interação entre todos os elos, temos resultados muito satisfatórios e incorremos em menos erros", observa Wagner Lopes, presidente da Abesc (Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Concretagem).

Conseguir esse relacionamento baseado na comunicação depende, obviamente, da vontade dos envolvidos num primeiro momento. Em seguida, depende da qualificação técnica das partes. Afinal, de nada adianta convidar uma concreteira para participar do desenvolvimento do projeto estrutural se estiver despreparada para atender às demandas de canteiro.

O primeiro obstáculo a ser encarado pelo construtor é o da escolha da empresa que fornecerá o concreto. A própria Abesc disponibiliza um roteiro com dicas e observações para esse fim, baseado no que segue para aceitar a filiação de empresas ao quadro de associados. A Associação salienta que os critérios extrapolam a qualidade do concreto fornecido, abrangendo os procedimentos adotados para preparo, controle e distribuição, bem como a regulamentação pelas normas técnicas, a metodologia do recebimento, seleção e controle dos componentes, as instalações, equipamentos e frotas e o preparo dos profissionais (confira quadro com o check-list proposto pela Associação).

Um dos gargalos da programação é o recebimento. A quantidade de operários, ferramentas e equipamentos deve ser dimensionada de acordo com o intervalo entre caminhões, e o canteiro deve contar com local acessível para estacionamento

Relação intrínseca

Contar com os serviços de uma concreteira que atenda aos padrões mínimos de qualidade aumenta a segurança quanto ao desempenho final da estrutura e também diminui, mas não elimina, a necessidade de verificações adicionais. É uma demanda dos construtores aliviar a etapa de verificação da qualidade e futura performance do concreto aplicado. "Quero comprar sem ter a obrigação de verificar as características do produto", pontua o engenheiro Mauricio Bianchi, diretor técnico da BKO Construtora e coordenador do Comitê de Tecnologia e Qualidade do SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo).

Bianchi chama a atenção para a durabilidade do concreto que, segundo ele, vem diminuindo. O motivo seria a substituição do cimento por aditivos, que tornam o concreto mais poroso e suscetível. Uma das propostas dos construtores para afinar a contratação é incluir a questão da durabilidade entre os parâmetros de especificação. Com isso, o desempenho ao longo do tempo seria responsabilidade também do fornecedor.

Embora a etapa de verificação de desempenho esteja longe de ser eliminada, ela pode se tornar menos importante com o aumento da transparência e a conseqüente mútua responsabilidade pelo cumprimento dos objetivos. Um exemplo levantado por Wagner Lopes refere-se ao conhecimento do destino do concreto.

Quando a concreteira sabe quais peças serão moldadas com o concreto que está enviando, é capaz de alertar sobre inconsistências em relação a pedidos anteriores. Dotadas de cadastros informatizados, podem inserir dados acerca das características estruturais e impedir o envio quando o pedido para a concretagem de uma laje, por exemplo, vem com resistência ou outras características incompatíveis.

Ainda no mesmo exemplo, podem compensar o eventual desconhecimento técnico do responsável pela compra de suprimentos, que nem sempre está diretamente envolvido com a obra. "Vendemos serviços técnicos, não produtos de prateleira", sentencia Lopes. "As concreteiras têm condições, desde que a participação seja estimulada, de opinar tanto na parte técnica quanto na operacional da obra, sugerindo meios de otimizar processos."

Ao fazer o pedido de concreto o construtor deve informar o método de lançamento para que o concreteiro determine o slump e reserve a bomba, se for o caso

Na prática, segundo Lopes, os fornecedores podem, por exemplo, sugerir a substituição de um concreto convencional por outro, auto-adensável, a fim de eliminar a necessidade de vibração e espalhamento.

O lançamento e a vibração, embora de responsabilidade da construtora, afetam diretamente a qualidade do concreto acabado. Então, é interesse das concreteiras participar da otimização dessas tarefas, assim como da cura. Por esse motivo, a Abesc promove treinamentos voltados para a mão-de-obra das construtoras.

Inúmeros são os benefícios diretos e indiretos de uma melhor interação entre as partes. Os principais são a precisão na especificação, com dados baseados em necessidades e exigências conhecidas por todos, e o planejamento logístico, acertado de acordo com freqüência e quantidades. "Muitas vezes as construtoras erram na programação, pois têm muitas obras e não conseguem se planejar", afirma Bianchi.

Dessa maneira, a contratação deve levar em conta também os horários de uso de concreto e as distâncias a serem percorridas. Quando possível, evitando os horários de pico tanto de trânsito quanto de demanda por concreto. É substancialmente problemático para as concreteiras enfrentar cancelamentos ou alterações de última hora na programação. O mesmo ocorre com a equivocada definição de freqüência de intervalos ou dimensionamento para lançamento. "Outras obras, de outras construtoras, acabam sendo afetadas", conta Lopes.

Aspectos básicos a checar

* Instalação e equipamentos

* Atuação junto ao mercado consumidor

* Critérios para aceitação do concreto

* Execução do concreto

* Normalização técnica

* Controle dos componentes

* Controle do concreto

* Ação de venda

* Ação institucional

Normas

NBR 7212 Execução do Concreto Dosado em Central

NBR 12654 Controle Tecnológico dos Materiais Componentes do Concreto

NBR 12655 Preparo, Controle e Recebimento do Concreto

NBR 8953 Concreto para Fins Estruturais - Classificação por Grupos de Resistência

Especificações

Uma vez que as concreteiras não fornecem produtos, mas material e serviços de concretagem que viabilizam a obtenção do produto final - a estrutura - a precisão na especificação de compra é o primeiro passo para o êxito do processo.

A quantidade e complexidade de informações a serem transmitidas à concreteira dependem diretamente das características esperadas para a estrutura. Indiretamente, dependem da atenção que a construtora reserva para a manutenção de um padrão de qualidade, seja para a execução ou para o produto de sua atividade. Daí as vantagens de incentivar uma participação maior desses fornecedores no desenvolvimento dos projetos estruturais e de concretagem.

A Abesc, assim como as empresas a ela associadas, toma como base as normas NBR 6118 (projeto) e NBR 7212 (execução). Por conseqüência, tendem a seguir um roteiro de especificação para prestar o serviço. Caso essa Lista de Especificação de Concreto não esteja adequadamente preenchida, o fornecimento não pode ser feito.

"Quem define o concreto é o projetista e quem fornece é a concreteira, mas a compra é tarefa da construtora", ilustra Wagner Lopes, presidente da Abesc, sobre a possibilidade de imprecisões incidirem na troca das informações entre esses elos da cadeia. Veja a seguir as informações de que prescindem as concreteiras para otimizar a relação com o construtor.

Obrigatórias

Sem essas informações básicas a NBR 6118 não autoriza o fornecimento do concreto. Outros dados, como as características da peça a ser concretada - se laje, pilar ou viga -, podem ser úteis caso seja próxima a relação entre construtora e concreteira. Afinal, se participou da elaboração do plano de concretagem e, sobretudo, do desenvolvimento do projeto estrutural, a fornecedora de concreto sabe de antemão quais as características da estrutura.

* Resistência

* Consumo de aglomerante

* Idade de controle - caso não seja informada, a concreteira trabalha com idade padrão de 28 dias

* Classe de agressividade - locais com nível de agressividade elevado sujeitam o concreto e as armaduras a ataques químicos que podem diminuir a durabilidade da estrutura

* Dimensão máxima do agregado - em situações em que a armadura é muito fechada e a peça muito esbelta a distribuição dos agregados é heterogênea

* Trabalhabilidade - para bombeamento o concreto deve ter slump maior ou igual a 80 mm

* Aplicação (normal, bombeável ou auto-adensável) - além da possibilidade de cruzar esse dado com o da trabalhabilidade e evitar problemas no lançamento, a concreteira se prepara para o fornecimento ou não de equipamentos de bombeamento

Complementares

Concretos com exigências diferenciadas em relação ao desempenho exigem especificação ainda mais detalhada. Em paralelo, por vezes se faz necessária a importação de agregados de outras regiões para obter, por exemplo, o módulo de elasticidade desejado pelo projetista. O mesmo vale para o uso de fibras ou aditivos.

* Módulo de elasticidade

* Massa específica

* Fibras (aço, polipropileno, náilon)

* Cimento específico

* Aditivo específico

A solução nas fundações

Um dos resultados positivos da proximidade entre os elos da cadeia pode ser encontrado logo abaixo das edificações. Problemas recorrentes de exsudação eram enfrentados pelos projetistas e executores de fundações, principalmente de estacas do tipo hélice contínua e de paredes-diafragma.

"Sempre que tínhamos problemas, contatávamos a concreteira para buscar uma solução", lembra Frederico Fernando Falconi, diretor da Zaclis Falconi Engenheiros Associados e presidente do NRSP-ABMS (Núcleo Regional São Paulo da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica) entre 1999 e 2000.

A freqüência de repetição dos problemas motivou a realização de uma reunião entre Abeg (Associação Brasileira de Empresas de Projeto e Consultoria em Engenharia Geotécnica ), Abef (Associação Brasileira de Empresas de Engenharia de Fundações e Geotecnia) e Abesc (Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Concretagem) em abril deste ano.

A exposição da situação revelou um grande e mútuo desconhecimento entre as necessidades, exigências técnicas e limitações da atividade alheia. Enquanto as concreteiras ignoravam a finalidade específica do concreto que forneciam, os projetistas de fundação enfrentavam problemas de especificação. Ou seja, embora totalmente de acordo com o pedido, o concreto fornecido era inadequado para a função que deveria exercer. "Especificavam um concreto que nunca atenderia às necessidades deles", pondera Wagner Lopes, presidente da Abesc.

A solução para o conflito entre as especialidades da engenharia levou ao desenvolvimento de um termo comum de especificação de concreto para fundações. Assim, quando se pede concreto a uma associada à Abesc, os dois lados já conhecem o termo, que determina uma especificação pré-definida de acordo com as características de cada tipo de fundação.

Na prática, o que ocorreu foi uma adaptação do traço do concreto às peculiaridades da execução de fundações. "A metodologia de execução de fundações se mantém", explica Falconi. "Não temos muito tempo desde a entrada em vigor do termo, mas aparentemente encontramos a solução", comenta.

Problemas comuns

Programação: apontado tanto por concreteiras quanto reconhecido pelas construtoras, que têm dificuldade em programar as concretagens. Os motivos vão desde a falta de coordenação integrada entre obras até o dimensionamento equivocado de mão-de-obra e equipamentos.

Destinação: a confusão entre concretos de características diferentes pode ser evitada com a proximidade entre fornecedor e cliente. Quando uma grande variedade de resistências é especificada, uma para cada tipo de elemento estrutural, a concreteira pode informar o motorista e indicar, no caminhão, a resistência. Isso evita que, por exemplo, um concreto de 50 MPa, destinado a um pilar, seja usado para uma laje, cuja resistência necessária é de 40 MPa.

Logística de canteiro: a entrada, a saída e o local de estacionamento dos caminhões, bem como o percurso dos carrinhos ou dutos para transporte do concreto, devem estar livres para evitar atrasos no descarregamento. Caso contrário, o tempo máximo desde a mistura até o lançamento pode ser excedido e o material perdido.

Dimensionamento: equipamentos, ferramentas e mão-de-obra em quantidade suficiente devem estar disponíveis e preparados para evitar problemas de descontinuidade na concretagem. Instrumentos adicionais auxiliam no caso de imprevistos. O mesmo vale para as concreteiras, que nem sempre acertam na distribuição dos caminhões entre as diversas obras que atendem.

Reportagem de Bruno Loturco

 

 

 

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