Concreto Aparente
Acabamento final
Engenheiros e arquitetos elogiam a versatilidade e resistência do concreto aparente, destacando obras que se tornaram ícones. É preciso, porém, protegê-lo de intempéries e agentes agressivos, para garantir durabilidade

Por Silvana Rosso

Foi no fim do século XVIII que a mistura cimento, areia, agregados e água tornou-se um dos materiais mais adotados na construção civil. Com a evolução dos estilos de arquitetura e a supressão dos excessos, sua trabalhabilidade e aparência neutra possibilitaram a arquitetos modernos e contemporâneos explorar a forma e a volumetria dos edifícios, sem a necessidade do uso de acabamentos ou revestimentos.

No Brasil, não faltam exemplos marcantes, como as obras idealizadas por Oscar Niemeyer e as de Ruy Ohtake, que tiram bastante proveito da beleza plástica do concreto. Em São Paulo, encontram-se edifícios emblemáticos como o da IBM, o Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo (acima), a sede dos Correios, a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), o Masp (Museu de Arte de São Paulo) e o Hotel Unique, que utiliza três cores de concreto aparente. No Rio de Janeiro, duas novas obras se destacam: o Estádio João Havelange, construído em pré-moldados de concreto, e a Cidade da Música. Em fase de finalização, a Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, diferencia-se por usar o concreto aparente branco.

O concreto aparente caracteriza-se por deixar à vista sua coloração e textura naturais. A superfície pode ser protegida por uma película, desde que seja transparente e incolor. "Tal e qual o concreto revestido, o material deve resistir a agentes agressivos, que levam à corrosão das armaduras e comprometem a estrutura", destaca Cláudio Oliveira, gerente do Projeto Indústria da ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland).

"Não há limites técnicos para uso do concreto aparente", diz o engenheiro civil Thomas Garcia Carmona, diretor da Abece (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural) e da Exata Engenharia e Assessoria SS. Plasticidade, resistência e durabilidade fazem o material altamente conveniente na versão aparente. "No entanto, quando em contato direto com agentes agressivos, não se recomenda essa alternativa", alerta o arquiteto Ricardo Alencar, consultor de concreto e membro do Comitê Técnico Pré-Moldados do Ibracon (Instituto Brasileiro do Concreto).

"Trabalhabilidade, coesão, baixíssima exsudação, baixa carbonatação e alta resistência são as principais características que o concreto aparente deve apresentar", resume o engenheiro civil Paulo Roberto do Lago Helene, professor titular do departamento de engenharia de construção civil da Escola Politécnica da USP e presidente do Ibracon. O concreto deve ter baixa porosidade, baixo índice de fissuração, além de coloração e textura compatíveis com a aparência que se deseja. Para resultar na estética intencionada pelo projeto de arquitetura, Ricardo Alencar ressalta que "o material deve possuir um nível superior de acabamento superficial e ser isento de imperfeições".

Durabilidade e resistência
A vida útil de uma estrutura de concreto, seja aparente ou não, é determinada pela qualidade dos materiais utilizados na composição e pela Regra dos 4 C. Ou seja, pela composição do traço do concreto – principalmente em função da relação água/cimento –, pela compactação ou adensamento do concreto, pela cura e pelo cobrimento da armadura (distância entre a armadura e a superfície), compatível com as condições de exposição.

"Infelizmente, por enquanto, não há na Norma Brasileira qualquer especificação de durabilidade de projeto. Em princípio, subentende-se que 50 anos é o mínimo razoável", destaca Paulo Helene. No Brasil, encontram-se edifícios bastante antigos de concreto aparente e que, com gastos normais de manutenção, têm durabilidade muito superior a 50 anos.

Na falta de ensaios comprobatórios de desempenho da durabilidade da estrutura frente ao tipo e nível de agressividade previsto em projeto, a NBR 6118 estabelece para cada classe de agressividade prevista (fraca, média, forte e muito forte) valores mínimos de relação água/cimento, resistência à compressão e cobrimento nominal.

Também por questões de durabilidade, em ambientes rurais com agressividade fraca, deve-se usar concretos de resistências superiores a 20 MPa. No caso de um edifício em orla marítima com agressividade forte, aconselha-se o concreto com resistência mínima de 30 MPa.

"Com o desenvolvimento de aditivos plastificantes de alta eficiência, já é possível produzir concretos com resistências acima de 100 MPa, como os utilizados em alguns pilares do edifício e-Tower em São Paulo", exemplifica o gerente da ABCP, Cláudio Oliveira.

O mix certo
A mistura utilizada no concreto aparente deve ter baixíssima relação água/cimento, algumas adições especiais e aditivos que lhe confira as características desejadas e assegure proteção à superfície que ficará exposta às intempéries e agentes agressivos.

"Qualquer tipo de cimento Portland pode ser adotado no concreto aparente", afirma Oliveira. Mas, para cada situação, o presidente do Ibracon recomenda um tipo diferente. Os cimentos com adições tipo CP III e CP IV garantem resistência à lixiviação e aumentam a impermeabilidade do material. Os pozolânicos tipo CP IV minimizam o risco de reações álcali-agregado. Os do tipo CP I e CP V sem adições reduzem a profundidade de carbonatação. Já os cimentos com adições tipo CP III e CP IV com adição extra de sílica ativa e cinza de casca de arroz diminuem a penetração de cloretos.

A escolha do cimento também pode levar em conta fatores estéticos, pois normalmente está associada à cor da matéria-prima. No concreto aparente com pigmentos – que devem ser de base inorgânica –, o cimento Portland branco estrutural é o mais indicado para a obtenção de cores mais claras. Para produzir pré-fabricados, no entanto, o fator preponderante é o tempo de desenforma. Por isso, para se conseguir um saque mais rápido, recomenda-se o uso do CP V (ARI), que proporciona alta resistência inicial em tempo curto. "Porém, quando o concreto está exposto a águas residuais industriais, esgoto ou solos contaminados (sulfatados) a opção é o ARI-RS."

Adições e aditivos
As adições minerais (metacaulim, nome comercial de silícia ativa, sílica ativa, fíler calcário etc.) são recomendadas por possibilitarem o refinamento dos poros, tornando a microestrutura do concreto mais compacta e aumentando a sua durabilidade.

O aditivo inibidor químico de ação mista, que pode ser tanto incorporado à massa do concreto quanto aplicado diretamente sobre a superfície do concreto endurecido, evita as reações anódicas e catódicas de corrosão das armaduras.

Aditivos plastificantes, polifuncionais, super ou hiperplastificantes são recomendáveis para tornar o concreto mais fluido e facilitar o adensamento em peças esbeltas e/ou com alta taxa de armadura.

Dependendo das características da obra e dos elementos a serem concretados, aditivos aceleradores ou controladores de hidratação podem ser necessários para tornar o material mais trabalhável. Nessa situação, o concreto deve ser dosado com um nível apropriado de argamassa e agregado graúdo com dimensão máxima, adequando-se aos espaçamentos entre as amaduras.

Películas de proteção
Vernizes e hidrofugantes, ambos possuem suas vantagens e desvantagens para garantir a proteção superficial do concreto aparente. A escolha correta depende do tipo de aplicação. Os vernizes formam filme contínuo e são mais eficientes na proteção de agentes agressivos. Já os hidrofugantes são capazes de penetrar alguns milímetros nos poros do concreto, impedindo a penetração de água e de substâncias agressivas nela dissolvidas. Em relação ao verniz, o hidrofugante permite a circulação de vapor d'água e com isso reduz a formação de bolhas e bolor. Vernizes foscos, apesar de serem mais caros, têm a vantagem sobre os brilhantes, pois não alteram o aspecto original do concreto e não evidenciam as imperfeições do material bruto.

Cuidados na execução
A execução de estruturas de concreto aparente requer os mesmos cuidados que as estruturas revestidas. Ou seja, montagem de fôrmas, preparação da armadura, ajuste da fôrma, aplicação de desmoldante, lançamento do concreto, adensamento, cura e desenforma.

O sucesso ou não da execução depende de alguns cuidados, começando pelo projeto. "Tanto o arquitetônico como o estrutural deve considerar as condições de exposição", enfatiza Carmona. Detalhes de projeto que modificam o fluxo da água de chuva – como chapins nos topos de platibandas e paredes, pingadeiras nos beirais etc. – evitam acumulação de água sobre a superfície do concreto.

O uso do mesmo tipo de cimento, que garante a homogeneidade da cor, a aplicação uniforme de desmoldante, os cuidados com o lançamento e adensamento do concreto, para evitar falhas de concretagens, e o cumprimento do tempo de cura vão definir a qualidade final da obra. O estudo de dosagem – talvez o mais importante – assegura um concreto com consistência adequada, capaz de preencher todos os espaços das fôrmas e armaduras e impedir a ocorrência de segregações e macroporosidades. Atualmente, o concreto auto-adensável ganha espaço, por atender todos esses requisitos, com vantagem de dispensar o uso de vibrador e incrementar a qualidade do produto acabado.

A utilização de películas de proteção ou, dependendo do ambiente, de inibidores de corrosão e retração, incorporados na massa de concreto fresco, proporcionam maior durabilidade ao concreto.

"A qualidade das fôrmas é fundamental, pois tudo fica registrado no concreto", justifica Alencar. Por isso, antes do lançamento devem ser conferidas dimensões, nivelamento e prumo, em conformidade com as tolerâncias. As superfícies internas devem estar limpas e ser suficientemente estanques e seladas, evitando fuga de argamassa pelas juntas. A utilização correta das armaduras e a rigidez das fôrmas proporcionam o cobrimento mínimo da estrutura exposta.

Quando utilizadas fôrmas de madeira, são indicados os desmoldantes à base de água. Alencar recomenda que sejam saturadas com água, para minimizar a desidratação do concreto. Já nas metálicas devem ser aplicados produtos à base de óleo vegetal, que preservam a superfície.

Na etapa da cura, convém proteger as estruturas da incidência direta do sol e de correntes de vento. "A evaporação da água pode provocar fissuras na superfície do concreto", alerta o arquiteto Ricardo Alencar, que recomenda o uso de agentes de cura nessa etapa.

Sempre que necessário, deve-se realizar reparo na estrutura que apresente problemas de fissuras, bolhas ou bicheiras, que possam causar prejuízos estéticos ao concreto aparente. A estucagem é necessária para preencher os pequenos defeitos de execução e o caldeamento é aplicado na superfície do concreto para conferir maior homogeneidade às superfícies acabadas.

Particularmente, na produção de elementos pré-fabricados, onde quase todas as peças são empregadas aparentes, em geral os moldes são metálicos, pois proporcionam melhor acabamento. De acordo com Alencar, quando empregadas fôrmas de chapas de madeira, é comum revestir a superfície com material plastificado, para atender aos requisitos de qualidade superficial.

Riscos e soluções
Os principais mecanismos de deterioração que podem atuar em obras de concreto aparente são corrosão de armaduras, acúmulo de fuligem, proliferação de fungos e lixiviação superficial. A solução para a maioria dos problemas está na "alteração das propriedades superficiais do concreto", ensina Alencar. Reduzir a relação água/cimento, incorporar adições minerais e utilizar película de proteção e impermeabilização das superfícies modificam a absorção de água, capilaridade, porosidade e rugosidade do material, minimizando o surgimento de manchas e reduzindo a manutenção corretiva.

Para evitar a corrosão de armaduras, deve-se conferir os cobrimentos mínimos com medidas preventivas e controle da qualidade adequado. Na ocorrência de fissuras na superfície do concreto, seja por retração ou por outros esforços, indica-se a estucagem (argamassa) que tampa os vazios, obstruindo a entrada dos agentes agressivos. Em fissuras ou trincas mais profundas, deve-se injetar material de baixa viscosidade, geralmente resina epóxi, como medida para reduzir o risco de corrosão.

O possível contato do concreto com ácidos pode desintegrar a pasta de cimento e expor o agregado. Como efeito secundário, a alcalinidade é reduzida, eliminando a passividade das armaduras, que ficam sujeitas a fenômenos corrosivos.

Manutenção
"O concreto bem projetado não necessita de nenhum tipo de manutenção", garante o gerente da ABCP. Como em qualquer obra existente, no entanto, é altamente recomendável um programa de inspeções periódicas, além de limpeza adequada e reaplicação de eventuais sistemas de proteção superficial existentes.

No caso de intervenção e reparos em estruturas com problema de corrosão, deve-se evitar alterações estéticas no resultado final", aconselha Alencar. Na maioria dos reparos, pode ser mais viável o emprego de microconcretos e argamassas industrializadas, adequadamente formuladas para cada tipo de patologia em questão.

O consultor recomenda o uso de argamassas poliméricas, que são tixotrópicas, para superfícies verticais, quando a área a ser reconstituída é rasa e envolve apenas a armadura. Quando se exige uma profundidade maior da área a ser reparada, de difícil acesso ou densamente armada, é indicado o graute com características autonivelantes. Os produtos são encontrados no mercado na própria cor do concreto.

 

 

 

 

Produzido por: BCP Design