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Cooperação técnica
Para melhorar a
qualidade dos revestimentos, construtoras recorrem ao suporte
das empresas para acertar na argamassa e evitar patologias
Especialistas
concordam com a necessidade de um projeto para o revestimento,
mas não se deve mistificar
É comum entre
engenheiros se dizer que o revestimento externo é o cartão
de visitas da obra. Afinal, é um dos elementos mais visíveis
da construção, que pode ter um importante apelo de vendas.
Talvez seja esse um dos motivos para a crescente atenção das
construtoras ao revestimento argamassado. "Até pouco
tempo atrás era raro se fazer projeto de revestimento. Isso
tem ganhado corpo nas empresas mais desenvolvidas, mas
certamente será adotado pelo restante do mercado",
avalia Fábio Luiz Campora, secretário-executivo da Abai
(Associação Brasileira de Argamassa Industrializada).
Essa também é
uma reação do mercado a uma série de patologias registradas
em obras nos últimos dez anos, reflexo das mudanças
profundas na maneira de conceber as estruturas, como o uso de
concretos de altíssimo desempenho e necessidade de vãos
maiores nos edifícios. E isso "exige" muito do
revestimento. A conseqüência foi inevitável, com um aumento
muito grande nas patologias nesses últimos anos", avalia
o livro "Revestimentos de Argamassas: Boas Práticas em
Projeto, Execução e Avaliação", editado por Luiz
Henrique Ceotto, Ragueb C. Banduk e Elza Hissae Nakakura e
elaborado com a participação de construtoras, fornecedores e
pesquisadores.
O mercado,
ainda que tardiamente, respondeu e, hoje, uma série de
treinamentos, cursos e orientações em canteiro promovidos
por fornecedores e associações setoriais estão à disposição
das construtoras. O principal avanço nesse sentido veio em
2004, com a criação do Consitra (Consórcio Setorial para
Inovação em Tecnologia de Revestimentos de Argamassa), que
reúne representantes de diversos segmentos da cadeia
produtiva com o objetivo de desenvolver novas tecnologias de
revestimentos. O consórcio tem duração de três anos, renováveis
por mais três, com orçamento de R$ 1 milhão anuais. Uma das
primeiras realizações foi exatamente a publicação do livro
"Revestimentos de Argamassas".
Com uma rede de
suporte à disposição, principalmente nas grandes capitais,
as construtoras podem obter ganhos de produtividade e
qualidade no canteiro. "As empresas podem avançar muito
se realizarem parcerias com os fornecedores, treinarem a mão-de-obra
e fazerem um monitoramento conjunto", afirma Otávio
Lopes Simonis, gerente de obras da Barbara Engenharia e
Construtora.
Por outro lado,
as construtoras não podem esquecer que só auxílio de
fornecedores não basta para se alcançar um revestimento de
qualidade. "O construtor precisa ter claro que
revestimento não é só argamassa. Entendendo isso, ele
perceberá que apenas a parceria com o fornecedor não é
suficiente, pois ele precisa ter um controle de todo o
processo", afirma Mércia Bottura de Barros, especialista
em revestimentos e professora da Escola Politécnica da
Universidade de São Paulo.
Projeto
O projeto de
revestimento externo deve determinar, basicamente, materiais,
geometria, juntas, reforços, pré-moldados, acabamentos,
procedimentos de execução e controle, além das diretrizes
de manutenção. Uma peculiaridade dos projetos desse tipo é
seu caráter evolutivo. Ou seja, para ser concluído, é
extremamente dependente de aferições ao longo da obra para
considerar, por exemplo, o desaprumo da estrutura, as
propriedades reais das argamassas e dos componentes da vedação.
Por isso, esse tipo de projeto tem um longo prazo de maturação,
além de uma seqüência peculiar (veja boxe). "O projeto
de revestimento acaba obrigando que a construtora pense de
forma sistêmica, porque é preciso pensar no substrato, na
estrutura, no produto, na mão-de-obra, na logística e nos
detalhes de execução", afirma Campora, da Abai.
Pensar o
projeto de revestimento de forma sistêmica consiste
basicamente em considerar as interações entre seus
diferentes componentes, como chapisco, argamassa e tratamento
da base. É necessário, ainda, considerar elementos da obra
que podem ter reflexos no revestimento, como características
estruturais e de fachada. Tudo isso deve ser realizado com
antecedência suficiente para que não apenas o projeto de
revestimento possa ser alterado, mas até mesmo para que
outros elementos possam sofrer alterações, se for o caso.
"O que temos observado é que geralmente a base já está
definida quando se começa a pensar no revestimento. Mas se
for pensado com antecedência, a construtora pode, por
exemplo, escolher o bloco de alvenaria considerando, entre
outros pontos, aquele que tem maior potencial de trabalhar com
a argamassa escolhida", explica Mércia de Barros.
Atentar para as características do substrato, aliás, é
fundamental para que o revestimento seja bem executado.
"Não dá pra falar de revestimento sem falar do
substrato. A melhor das argamassas pode se tornar o pior dos
revestimentos se o substrato não for adequado", afirma a
pesquisadora.
A mão-de-obra
é outro ponto essencial para se garantir a qualidade do serviço
e, se não for treinada adequadamente, pode ser a principal
causa de patologias nos revestimentos. "Com a maior
utilização de argamassas industrializadas, as grandes variações
no revestimento hoje ocorrem na aplicação", afirma
Gilberto Cavani, pesquisador do Laboratório de Revestimentos
do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São
Paulo). Segundo Cavani, no entanto, novas tecnologias permitem
a redução dessa variabilidade, como o caso do revestimento
projetado. "O ganho de qualidade da argamassa projetada já
está comprovado", sentencia.
O primeiro
passo para evitar contratempos com a mão-de-obra é inteirar
a equipe de todo o conteúdo do projeto e de suas especificações
técnicas. É importante que o projetista explique as
premissas que nortearam o projeto, abordando, por exemplo, as
características necessárias do chapisco e da argamassa,
introdução de reforços e características do revestimento
final. A seleção da mão-de-obra ou contratação da
executora do revestimento deve ser criteriosa. Deve-se
considerar, entre outros pontos, o número de profissionais
considerando a produtividade média do processo, o cronograma
da obra e o plano de ataque anteriormente definido. Com esses
cuidados somados a um projeto detalhado e criterioso, além do
controle do processo, estão dadas as pré-condições para
que o revestimento seja, de fato, o cartão de visitas da
obra.
Check-list
Inicie o
projeto de revestimento externo logo após a entrega dos
projetos preliminares de arquitetura, estrutura e vedação
Na realização
do projeto, considere: condições ambientais, arquitetura
(detalhes de friso e elementos decorativos, por exemplo),
estrutura (geometria, rigidez e deformações previstas),
instalações, vedações, processos construtivos e prazos
A equipe de
obra deve se inteirar por completo do conteúdo do projeto e
das especificações técnicas
O projetista
deverá explicar à equipe de obra as premissas que nortearam
as principais definições do projeto, englobando: características
necessárias dos chapiscos e argamassas de emboço; disposição
e acabamento de juntas; introdução de reforços; fixação
de pré-moldados; introdução de peitoris; características
do revestimento final e outros detalhes do projeto de
arquitetura
Ajustes no
projeto e planejamento, geralmente necessários, deverão ser
feitos dentro dos princípios adotados nas fases anteriores
Projetos e
execução adequados precisam ser complementados com manutenções
preventivas, de maneira a fazer com que o revestimento externo
possa alcançar sua vida útil prevista - ou até estendê-la
A construtora
deverá fornecer aos usuários um manual contendo as orientações
necessárias, que aborde os seguintes tópicos, entre outros:
inspeção das fachadas, inspeção e limpeza
Fonte:
Revestimentos de Argamassas: Boas Práticas em Projeto, Execução
e Avaliação. Editores: Luiz Henrique Ceotto, Ragueb C.
Banduk e Elza Hissae Nakakura - Porto Alegre: ANTAC, 2005. -
(Recomendações Técnicas Habitare, v. 1)
Normas técnicas
NBR 9778 -
Argamassa e concreto endurecidos -
Determinação
da absorção de água por imersão - Índice de vazios e
massa específica
NBR 9779 -
Argamassa e concreto endurecidos - Determinação da absorção
de água por capilaridade
NBR 12819 -
Concreto e argamassa - Determinação da elevação adiabática
da temperatura
NM 9 - Concreto
e argamassa - Determinação dos tempos de pega por meio de
resistência à penetração
NBR 10908 -
Aditivos para argamassa e concretos ¿ Ensaios de uniformidade
NBR 13276 -
Argamassa para assentamento e revestimento de paredes e tetos
- Preparo da mistura e determinação do índice de consistência
NBR 13279 -
Argamassa para assentamento de paredes e revestimento de
paredes e tetos - Determinação da resistência à compressão
NBR 13281 -
Argamassa para assentamento e revestimento de paredes e tetos
- Requisitos
NBR 13528 -
Revestimento de paredes e tetos de argamassas inorgânicas -
Terminologias
NBR 13530 -
Revestimento de paredes e tetos de argamassas inorgânicas -
Classificação
NBR 13530 -
Revestimento de paredes e tetos de argamassas inorgânicas -
Especificação
Debate
Otávio Lopes
Simonis, gerente de obras da Barbara Engenharia e Construtora
Rubiane Antunes, supervisora da qualidade da Lafarge
Argamassas Fábio Luiz Campora, secretário-executivo da Abai
(Associação Brasileira de Argamassa Industrializada)
Adilson I.
Schiavoni Júnior - coordenador de negócios Argamassas, da
Votorantim Cimentos Paulo Sanchez, diretor técnico da Sinco
Construtora Mércia Bottura de Barros, especialista em
revestimentos, professora da Escola Politécnica da
Universidade de São Paulo
Gilberto De
Ranieri Cavani, pesquisador do Laboratório de Revestimentos
da Divisão de Engenharia Civil do IPT (Instituto de Pesquisas
Tecnológicas do Estado de São Paulo) Marcos Nunes, diretor
comercial da Lafarge Argamassa
Há uma percepção
no mercado de que, nos últimos anos, as patologias em
argamassas reduziram bastante. A que os senhores atribuem
isso?
Fábio Luiz
Campora - Até pouco tempo atrás era raro se fazer projeto de
revestimento, e hoje já se está fazendo. Acho que está
ficando claro para a construção que os elementos não são
estanques, mas sim partes de sistemas. Muito do que se faz num
certo momento implica conseqüências para os passos
seguintes. O projeto de revestimento acaba obrigando que a
construtora pense de forma sistêmica, porque é preciso
pensar no substrato, na estrutura, no produto, na mão-de-obra,
na logística e nos detalhes de execução.
Marcos Nunes -
Hoje a Abai [Associação Brasileira de Argamassa
Industrializada] e os fabricantes têm equipes imensas
dedicadas a treinar e orientar dentro das obras tanto os
engenheiros como os operários. Muitas vezes o mestre-de-obras
e os operários estão acostumados a fazer o revestimento da
maneira convencional e têm resistência a mudanças. Esse
treinamento e orientação sem dúvida reduziram em muito as
patologias.
Paulo Sanchez -
O que aconteceu na Sinco - e eu acredito que é mais ou menos
o que aconteceu no mercado como um todo - foi o seguinte. Em
2003, na obra do edifício West Side, em Alphaville
(Barueri-SP), tínhamos o desafio de fazer um prédio alto com
revestimento argamassado. Quanto à estrutura do prédio, já
existia no mercado conhecimento do assunto. Mas pouco se sabia
de revestimento argamassado em prédios altos. Então, tivemos
que fazer uma pesquisa profunda do assunto, buscamos o auxílio
dos fabricantes, e essa experiência posteriormente foi
repassada para a empresa como um todo.
É possível
dizer, pela experiência dos senhores, qual etapa do processo
geralmente tem ocasionado o maior número de patologias nos
revestimentos argamassados?
Gilberto De
Ranieri Cavani - Quando somos chamados pelas construtoras, o
que temos reparado é que muitas vezes as patologias acontecem
em revestimentos muito espessos. É aquela velha questão da
adição de gesso na argamassa, que é extremamente perigosa.
Isso acontece porque o revestimento é feito por empreitada, e
se o pedreiro, que precisa terminar um pano em um dia, pega um
clima mais frio, em que a argamassa não puxa, ele coloca um
pouco de gesso para a argamassa fechar mais depressa.
Adilson I.
Schiavoni Júnior - A adição de gesso em argamassa é um
veneno. E o grande problema é que a patologia vem só depois
de anos, quando já está tudo pronto, com o acabamento por
cima.
Otávio Lopes
Simonis - Com relação à experiência da Barbara, as
patologias que registramos foram basicamente desplacamento de
revestimento interno e externo. Isso foi diagnosticado e
constatamos que o problema foi a mistura do chapisco rolado -
nós controlamos a dosagem, mas, na aplicação, o chapisco
decanta. Com essa decantação, corre-se o risco de só ser
projetada água no substrato. Tivemos alguns problemas com
isso e abolimos o chapisco da Barbara há uns quatro anos.
Mércia Bottura
de Barros - O chapisco rolado exige um treinamento muito sério
de pessoal, porque ele não pode decantar. Quando isso
acontece, fica-se com uma nata de cimento e polímero
em cima. Se
for aplicado, estará selando a base.
O chapisco
rolado foi abolido na Barbara mais por falta de cuidado na
aplicação do que por problema no produto?
Simonis -
Exato. Porque essa questão da mão-de-obra é muito
complicada. Em muitas obras se trabalha com cinco tipos de
argamassa. E mesmo com treinamento, muitas vezes quando se vai
aplicar o produto, temos surpresas, muitas vezes em função
de prazos apertados. Externamente também tivemos problemas de
desplacamento oriundo provavelmente do concreto, que cria uma
dificuldade tamanha porque a estrutura é muito deformada.
Em que consiste
o projeto de argamassa de revestimento?
Mércia - O
projeto, na essência, é algo muito simples: é uma ação,
uma atividade, que precisa ser realizada com antecedência.
Acho que as pessoas estão mistificando muito o projeto de
revestimento, e isso acaba virando um fantasma. E isso, na
realidade, é simples. Projetar é pensar antes. É considerar
como a estrutura se comporta, saber qual é o substrato, como
é a alvenaria, etc.
Rubiane Antunes
- Outro ponto importante é o controle de todas essas etapas,
que também precisa constar no projeto. Porque às vezes se têm
todos os cuidados necessários, mas se esquece de controlar o
material que está chegando na obra. Então, corre-se o risco
de se preparar todo o sistema para uma determinada configuração,
que pode ir mudando no decorrer da obra e, aí, se perder o
histórico disso.
Mércia - O
ensaio de resistência de aderência da argamassa tem uma
variabilidade imensa. Dá de 30% a 40% de variabilidade num
ensaio feito em excelentes condições de trabalho. Outro
problema é a interpretação dos resultados.
Sanchez - Para
se ter idéia dessa variabilidade, no edifício West Side
fizemos quase 400 ensaios e tivemos, no mesmo painel, resistências
de 0,80 MPa e 0,20 MPa. É uma variação brutal.
Em relação ao
chapisco, quais as falhas de execução mais comuns que os
senhores têm observado?
Cavani - Um
problema grave que já observamos é a falta de cura do
chapisco. Já vi casos em que foi necessário arrancar o
revestimento do prédio inteiro por problemas desse tipo. O
que acontece é que em alguns casos há enorme cuidado com o
emboço, e o chapisco fica em segundo plano e coloca tudo a
perder.
Qual o tempo de
cura recomendado para o chapisco?
Mércia - A
recomendação técnica é de que seja de pelo menos três
dias. E essa recomendação vem exatamente no sentido de
permitir que se faça um ensaio do chapisco. Se com três dias
de cura do chapisco, as empresas fizessem o ensaio da espátula,
que é extremamente simples, elas deixariam de perder muito.
É só pegar a espátula do pintor e tentar arrancar o
chapisco. Se sair com três dias, desiste, porque ele está
sem aderência nenhuma
Simonis -
Fazendo uma analogia, a argamassa é como a pele do prédio.
E, às vezes, um problema de pele pode ser apenas reflexo de
outros problemas do corpo. Com a argamassa é a mesma coisa.
Às vezes o problema repercute na argamassa, mas pode ser de
outra área.
Mércia - O
chapisco tem uma dupla função no revestimento. É a ponte de
aderência entre o substrato e a argamassa, e também tem a
função de uniformizar as características do substrato. E no
caso da fachada, também contribui para a estanqueidade,
porque é uma camada a mais, e que tem um teor de cimento
alto.
Existem
procedimentos e tecnologias não recomendáveis em argamassa
de revestimento, que estejam causando muitas patologias?
Sanchez - Acho
difícil apontar um produto ou prática não recomendável. O
que acho é que não se pode fazer nada sem controle. O
construtor não pode cair no conto da terceirização, ou
seja, achar que terceirizando ele estará passando a
responsabilidade para a outra empresa.
Simonis - Até
porque, mesmo com a terceirização, a construtora continua,
em última instância, responsável pelo serviço.
Existem novas
tecnologias que podem ajudar no sentido da racionalização da
execução do revestimento?
Mércia -
Acredito que há avanços nesse sentido na medida em que temos
a utilização de revestimento projetado mais intensamente nas
construtoras.
E isso funciona
bem?
Mércia - Tem
funcionado muito bem, com ganhos não só de produtividade mas
também de qualidade. Com o revestimento projetado se consegue
diminuir muito a variabilidade da mão-de-obra, porque se
passa para o equipamento grande parte do trabalho de aplicação.
Campora -
Acredito que foi um grande avanço termos passado da colher de
pedreiro para o revestimento projetado. Mas acho que ainda
estamos no primeiro degrau disso. Temos muito a evoluir nesse
sentido.
Para os
construtores presentes, a argamassa projetada tem futuro nas
obras?
Sanchez - Uma
coisa eu posso dizer, pela minha experiência: argamassa
projetada não ganha produtividade. No meu entender, a única
vantagem da argamassa projetada é o efeito dinâmico, que
melhora em muito a resistência à tração. Quanto à
produtividade, já testamos um prédio com argamassa projetada
numa metade e argamassa manual em outra, e a produtividade foi
igual.
Cavani - O
ganho de qualidade da argamassa projetada já está
comprovado. Isso, de fato, ninguém contesta. E quanto à
produtividade, vou discordar. Eu tenho certeza de que com a
argamassa projetada também se ganha produtividade. O que
acontece é que você tem que acertar condições. Tem que
pensar diferente. Sei de alguns casos em que a pessoa pegou
uma obra para teste, fez metade projetada e metade manual, e não
ganhou nada. Acho que o problema nesses casos é que eles
foram pensados da mesma forma, ou seja, só se trocou a colher
por um projetor.
Rubiane - É
preciso, por exemplo, avaliar se não é interessante usar um
balancim elétrico para a projeção.
Sanchez - Mas aí
é diferente. O que estou dizendo é que se mantiver-se todo o
restante do processo da forma tradicional, e apenas mudar a
aplicação da argamassa, não há ganho de produtividade. Já
com um sistema de elevação elétrico, plataforma, aí sim,
ganha-se muita produtividade, porque se aliam duas
tecnologias.
Simonis - O que
temos constatado na Barbara é que a argamassa projetada, em
termos de produtividade, praticamente iguala-se à
convencional, exceto em panos longos. Recentemente fizemos um
prédio de aproximadamente 4 mil m2 de fachada com argamassa
projetada e o que constatamos é que a principal evolução
ocorreu na mão-de-obra e no controle de qualidade, pois houve
o compromisso do fornecedor com relação a ensaios e outros
controles da obra. Devemos avançar com essas parcerias.
Projeto de
revestimento
Projeto inicial
- Finalizado antes do início da execução da alvenaria. O
projetista apresenta, em linhas gerais, o partido do projeto,
bem como as especificações básicas de desempenho dos
materiais.
Verificação
de parâmetros - Iniciada após o início da alvenaria. Deverão
ser testados e ensaiados os parâmetros definidos no projeto
inicial nas condições de obra (painéis), para definição
dos produtos e sistemas com as suas respectivas marcas a serem
utilizadas. Etapa mais demorada do processo, demanda de
60 a
90 dias para a conclusão.
Verificações
de desvios geométricos da estrutura, definição da mão-de-obra
e equipamentos - Executada logo após a conclusão da
estrutura.
Projeto final -
Concluído antes do início dos trabalhos de revestimento de
fachada.
Fonte:
Revestimentos de Argamassas: Boas Práticas em Projeto, Execução
e Avaliação. Editores: Luiz Henrique Ceotto, Ragueb C.
Banduk e Elza Hissae Nakakura - Porto Alegre: ANTAC, 2005. -
(Recomendações Técnicas Habitare, v. 1)
Normalização
necessária
Arnaldo Manoel
Pereira Carneiro, Coordenador do Grupo de Trabalho em
Argamassa da Antac (Associação Nacional de Tecnologia do
Ambiente Construído), doutor
em Engenharia Civil
pela Universidade de São Paulo e Institut National des
Sciences Appliquées de Toulouse (França)
Como o senhor
avalia o atual quadro normativo para argamassas de
revestimento no Brasil?
As normas ainda
não atendem às nossas necessidades, pois as que existem
ainda não levam em consideração a argamassa aplicada sobre
uma base, ensaios sob ciclos de molhagem e secagem, ciclos de
exposição à radiação solar, ou ciclos de intempéries
peculiares de regiões no Brasil, como atmosfera com grande
poluição (Cubatão ou Centro da cidade de São Paulo), névoa
salina (litoral Atlântico), baixa umidade e calor constante
(sertão do Brasil) e umidade e calor constantes (cidades da
Amazônia). Por exemplo, a norma Inglesa de Argamassas prevê
cuidados para argamassas que irão revestir paredes de sala de
Radiografias (raios-X). No futuro espera-se ter no Brasil uma
Tabela de Desempenho, que reunirá as características de
desempenho para argamassas de revestimento para essas diversas
situações, a exemplo do que acontece na França. Isso será
possível graças aos estudos de pesquisas desenvolvidos em
Centros de Pesquisa no Brasil, que são apresentados no SBTA
(Simpósio Brasileiro de Tecnologia de Argamassas), que ocorre
a cada dois anos, e que reúne pesquisadores e o mercado
consumidor para discutir o tema. O próximo evento vai ocorrer
na cidade de Recife, de 1º a 4 de maio de 2007.
Quais os
principais critérios que uma construtora deve adotar para
escolher entre uma argamassa produzida em obra ou uma
industrializada?
O critério
deve sempre ser o técnico aliado ao custo. Uma argamassa
industrializada pode ser substituída por uma produzida em
obra quando não for oferecido pelo fabricante garantia de
qualidade e durabilidade, assistência técnica adequada para
aplicar o seu produto, ou se no mercado não existir a
argamassa para um uso especial. De qualquer forma, o controle
de produção e aplicação são importantes para a
durabilidade da argamassa.
Em qual etapa
da obra estão as principais causas das patologias em
argamassas de revestimento externo (execução,
projeto/especificação ou fabricação)?
Se essa
pergunta fosse feita no final dos anos 80 e início da década
de 90, diria que a principal causa de patologias devia-se à
especificação incorreta da argamassa. Mas atualmente não
conheço dados que mostrem a maior ou menor causa das
patologias. O que posso dizer é que o mercado consumidor
precisa ser exigente com o fabricante, para garantir qualidade
e durabilidade, assistência técnica; treinar a mão-de-obra
e estudar e planejar os revestimentos externos com o mesmo
critério que o fazem para o cálculo estrutural.
Reportagem de
Gustavo Mendes
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